Nuvem

A fotografia bordada de Lais Domingues: uma herança milenar

Em 2015, Lais Domingues deu início a uma nova jornada a partir do seu próprio acervo fotográfico. Sem internet em casa e com o computador em pane, ela precisou colocar suas ideias analógicas em ação. Desde então, vem realizando experimentos visuais e têxteis, intervindo nas fotos em busca da expressão para além do captado pela câmera. O Portal Nuvem conheceu o trabalho de Lais e foi em busca das suas origens históricas.

Respira. Fotografia e bordado por Laís Domingues

Pelo menos 30 mil anos nos separam do primeiro ponto de bordado, o primeiro ponto cruz, que ultrapassava a função de unir peças de couro para criar vestuário e passava a ser usado como suporte para linguagens. Não é possível determinar como e onde o ser humano começou a bordar, pois há indícios de sua prática nos fundamentos de incontáveis culturas.

Desde a origem Pré-Histórica, o bordado passa por ondas de valorização e desvalorização, sendo categorizado como arte, artesanato, manualidade, conforme os ditames de cada época. Durante o Renascimento, quando as categorias das “grandes artes” foram tramadas, o bordado foi rebaixado a modalidade inferior, destinado às artes domésticas e ao domínio do feminino.

Na linhagem europeia dessa história, o bordado enfrenta séculos de exclusão. Relegado à execução de projetos, quem borda continua no anonimato mesmo durante a ascensão da Art Noveau, destina-se mormente às mãos femininas até na Escola da Bauhaus.

Nos anos 1970, começam a surgir iniciativas que vão mexer com as categorias e conceitos que destinavam um lugar subalterno ao bordado. Miriam Schapiro problematizou essas questões na sua exposição “Anonymous Was a Woman”, na qual bordados de guardanapos, golas, peças de uso doméstico e autoria incerta, foram emoldurados e expostos com badalação.

O feminismo era o motor desse movimento, que a partir dos anos 1990, vai gerar no Brasil nomes como Lia Menna Barreto, Beth Moisés, Rosana Palazyan e Rosana Paulino. Nas suas produções, crochê, tricô, montagens com objetos e até jardinagem, aliam-se ao bordado para falar sobre as causas às quais cada uma se alia.

Destaca-se deste grupo o trabalho desenvolvido por Rosana Paulino, dedicado às questões sociais, étnicas e de gênero. As fotografias impressas sobre tecido são a base para alguns dos seus trabalhos mais impressionantes. O bordado acrescenta significado ao tema gravado, ressignificando-as.

Assentamentos. Rosana Paulino.

Lais oferece oficinas de Fotografia Bordada que propõem a seguinte pergunta: Como criar e expressar sentimentos que não podem ser fotografados? A oficina percorre conteúdos de história do bordado, referências na Arte Contemporânea, pontos básicos e práticas em fotografias impressas sobre papel e tecido. 

A próxima está marcada para o dia 1º de julho, na Caverna Lunar.

 

Texto: Eva Duarte