Nuvem

É hora de ladrar pelA Casa do Cachorro Preto

Por Eva Duarte

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Tempos sombrios tentam esmaecer o cenário da cultura em todo o Brasil. Tempos de enfraquecimento das instituições dedicadas à manutenção da democracia, da justiça e do direito, tempos de quebras de compromissos com a sociedade, mas, bem visivelmente, de desmantelamento dos sistemas de fomento à cultura.

Em Olinda, ecos dessa contrapolítica pública se ouvem bem altos, amparados por um desejo de manutenção do título Cidade Dormitório, quiçá mais importante para os habitantes do Sítio Histórico do que o de Cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Tudo isso em nome de uma ordem pública que gera silêncio, escuridão e insegurança na área tombada.

Quem conhece Olinda sabe que aquelas fachadas são um palimpsesto de eras, que praticamente nada restou do século XIV, que a cidade se renova a cada necessidade criada. Sabe também, que centenas de imóveis já passaram para as mãos de estrangeiros, ficando fechadas a maior parte do ano, enquanto proprietários locais lutam para criar empreendimentos rentáveis sem fomento governamental.

A Olinda de que se tem saudade, repleta de ateliês a colori-la, remonta à década de 1950 e não nasceu espontaneamente. A ocupação de imóveis por ateliês contou com o fomento do então prefeito Eufrásio Barbosa e do seu secretário de Cultura Vicente do Rêgo Monteiro. Era o tempo dos jovens Gilvan Samico, Tereza Costa Rêgo, Zé Som, Iza do Amparo, Bajado e Baccaro, entre muitos outros.

Sem a sensibilidade e o incentivo como políticas públicas, as artes e seus produtores migram para onde possam abrir seus espaços de criação, unir-se aos seus pares, interagir com a sociedade, manter-se e pagar impostos.

A Casa do Cachorro Preto resistiu durante cinco anos como um cão de guarda das artes na cidade, sitiada pela incompreensão dos que a cercam. Durante esse tempo, manteve um projeto político pedagógico raro de se ver atualmente em uma Região Metropolitana assediada pela falta de visão dos gestores no que se refere à cultura.

Oito exposições eram realizadas anualmente, totalizando 50 individuais desde 2012, sendo 16 delas estreias. Havia também duas coletivas fixas – “Delas”, sempre em março, e “Pilhagem”, entre novembro e dezembro. O cuidado primoroso com o material gráfico e a dedicação da assessoria de imprensa colaboravam para a ativação das carreiras de jovens artistas e dava novo vigor aos de longa data.

Estavam programadas para 2017 e foram canceladas exposições individuais de Manoel Quitério, Raul Córdula e Clara Moreira. Além dos artistas visuais, também perdem espaço a música, a literatura, o teatro, o cinema e as práticas artesanais. De quinta a domingo, havia as programações integradas no quintal da Casa: Cine, Audição, Bolacha, QUintalexperimental. Sempre com a galeria aberta, com a finalidade de convocar e formar novos públicos para as artes contemporâneas.

Aos ganidos, A Casa do Cachorro Preto fecha suas portas, por conta de uma Lei obsoleta, responsável pelo fechamento de muitas outras, pelo afastamento das pessoas das ruas e pela passagem efêmera de turistas que cruzam rapidamente a cidadela dentro de vans refrigeradas ansiosos pelo retorno à muito mais acolhedora Porto de Galinhas.

No próximo domingo, dia 18, A Casa da Rua Treze de Maio, 99, vai se abrir pela última vez nesta era. É hora de comparecer e ladrar por uma mudança na legislação sensível às necessidades de quem mora, trabalha e passa pela cidade. Segue abaixo o convite feito pelA Casa no facebook.

CONVITE

Neste domingo, dia 18 de junho, entre 16h e 22h, vamos fazer um desapego do acervo, peças e produtos.
Dos nossos 5 anos acumulamos obras maravilhosas dos nossos artistas, produtos em forma de camisetas, cartazes, posteres, reproduções, alguns objetos de decoração etc. E tudo que está disponível vai ter desconto e parcelamento no cartão ou no checão.
Venha aqui pegar a parte que te cabe pra ganir por onde passar.
Também vai ter gente gravando depoimentos sobre o que representou a casa pra você nesses 5 anos
Vamos levar a Casa pra onde a gente for.
Por enquanto vamos manter um escritório, dar uma turbinada na presença virtual e levar o Cachorro pra passear.
Queremos retomar a lojinha redimensionada e repaginada, logo, logo.

A Casa do Cachorro Preto está oficialmente com as atividades encerradas no número 99 da rua 13 de maio, em Olinda – Cidade Patrimônio, histórico e cultural da humanidade.

Desapego
Domingo (18/06/2017)
16h às 22h
Rua 13 de maio, 99
Cidade Alta
A Casa do Cachorro Preto
http://lojinha.acasadocachorropreto.com.br/