Nuvem

O (ainda) discreto Yarn Bombing praticado no Recife

As técnicas ancestrais de tecedura de fios vêm sendo apropriadas para dar vazão a mensagens de cunho estético e político desde 2005, quando um dia de tédio levou Magda Sayeg a envolver com uma peça de tricô azul e rosa uma maçaneta da sua boutique. Algo tão simples lhe deu um insight revolucionário e nunca mais Magda parou de revestir coisas na sua cidade e nos lugares onde passou. Nascia o Yarn Bombing.

Intervenção de Magda Sayeg em Bali. Fonte: magdasayeg.com

Intervenção de Magda Sayeg em Bali. Fonte: magdasayeg.com

No começo, a intenção era mesmo embelezar os espaços públicos, mas os encontros com a urbe despertam outras vozes em quem tem a arte como munição. Magda começou a revestir estátuas, realçando as armas que portavam, como se apontasse algo que deveria ser modificado. Passou também a desenvolver obras cada vez maiores, como árvores e ônibus.

A partir daí, numa progressão que Magda nunca imaginaria, foram surgindo células de guerrilha têxtil em todo o mundo. Além do tricô, crochê e bordado também ganharam as ruas. Casas inteiras crochetadas em rosa, um trem supercolorido, praças e parques inteiros redecorados.

Existem também as pequeninas ações, criadas para os olhos mais atentos, preenchendo buracos nas calçadas, tornando divertidas placas de trânsito, deixando mensagens para quem senta em um banco de praça. Assim funciona este tipo de bombardeio, com estratégias diversificadas e mensagens contagiantes.

Na Região Metropolitana do Recife, o movimento ainda é discreto, mas começa a mostrar a cara na rua. Clara Nogueira e Marina Prado têm deixado seus projéteis ativistas aos olhos de quem consegue ver. Olhos – The Eye Project BR – são justamente o mote das intervenções de Marina, que os espalha por fachadas e paredes de espaços que frequenta no Recife, como a Mansão do Amor. Uma referência a Foucault?

Marina Prado. Fonte: Facebook.

Diferente de Marina, que tem um trabalho comercial diverso do que desenvolve com Yarn Bombing, Clara tem atuado em diversas frentes com as suas Linhas de Fuga, sempre manifestando sua visão política, feminista e de divulgação de um modo íntegro de ser mãe e mulher no mundo contemporâneo. Nos seus bordados aparecem cenas de amamentação, carinho entre pessoas, mas também de denúncia contra a violência que sofrem as mulheres.

Clara Nogueira e o resultado da oficina Tear de Grade. Fonte: Facebook.

Clara Nogueira e o resultado da oficina Tear de Grade. Fonte: Facebook.

Durante as ocupações das universidades federais na segunda metade de 2016, Clara ofereceu uma oficina de Tear de Grade na UFRPE, que resultou em murais com dizeres que apoiavam as ocupações e pediam a saída do presidente Temer do governo. Nas cortinas dos ônibus que pega a caminho da UFPB, onde estuda as artes têxteis no Mestrado, borda recados como “Há saída”, com o intuito de levar passageiros a repensarem suas vidas.

Texto: Eva Duarte